quarta-feira, 10 de maio de 2017

O yoga – Tara Michael - Capítulo 1

             

         
         Antes de tudo e qualquer coisa gostaria de dizer de minha grata surpresa ao “descobrir” (na verdade, ao me dar conta) que Tara Michael é uma pessoa do sexo feminino e não do sexo masculino. Infelizmente o conhecimento ainda está centralizado no sujeito masculino, e no mundo do Yoga isso não é muito diferente. Além disso, Tara é uma estudiosa no sentido mais pleno da palavra. Não sei se ela está morta ou viva, não consegui achar essa informação no Google, mas faço a opção de falar dela aqui, no presente, até porque não estaria mentindo. Ela está presente. Enfim, elucubrações a parte, “O yoga” de Tara Michael, apesar de tê-lo já há alguns anos, só me chega agora. Não digo que me chega completamente ainda. A verdade é que, apesar de ter compreendido os sentidos, muitos dos termos ainda não me chegaram. Tudo tem seu tempo. Tudo em seu tempo.
     Acho importante esclarecer aqui que a minha intenção ao longo das próximas semanas não é resumir a obra. É expor com honestidade, de acordo com as minhas possibilidades, a minha própria compreensão sobre os capítulos lidos e compartilhá-la com quem tiver interesse.
    "O Yoga" é um livro complexo que, apesar de todas as traduções e explicações nos pés de página, demanda um desejo real pela compreensão das palavras em sânscrito, pela tradução da história do yoga pela autora e, mais que isso, um desejo de adentrar o conhecimento do yoga para além do que a autora expõe como “Yoga para manter-se em forma”.
      Já a partir da lista de abreviações é possível identificar as fontes de pesquisa da autora: Bhahavad-Gitâ, Mahâbharâta, Upanishad, Yoga-Sûtra, entre outros, e a autora o faz com a intenção de colocar “o leitor dentro da perspectiva indiana” que, segundo a autora estaria se perdendo com a expansão e adaptação ao mundo ocidental. 
      O primeiro capítulo sobre as origens do Yoga segue à sua definição: “A palavra Yoga vem da raiz sânscrita YUJ, que significa “atrelar, unir, juntar””. Segundo a autora, “...o Yoga ocupa-se do homem tal como ele se apresenta em seu modo de ser habitual: mutável, diverso, contraditório, incoerente, disperso, cego e lhe propõe um ajustamento progressivo, culminando num perfeito domínio de seu “veículo” psicofísico. Esse ajustamento, essa integração, colocam-no na posse de si mesmo e lhe permitem conquistar um estado incomparavelmente superior à sua condição atual, com o qual não ousa sequer sonhar: o estado absolutamente  incondicionado, livre de todas as limitações que a tradição indiana denomina “Liberação” (moksa), quando compara às formas limitadas de existência, e “União” (yoga), quando se refere ao Princípio supremo”.  Pág 20
 Quanto à origem, a autora tem a mesma posição dos livros de referência aos quais já tive acesso, ou seja, de que o material sistematizado mais antigo de que se tem notícia são os Aforismos do Yoga (Yoga-Sûtra), compostos por Patañjali numa data que varia entre os séculos II a. C e IV d. C. Apesar do fato de que Patañjali registrou e classificou as práticas, existem muitas questões em torno da origem propriamente dita do Yoga. Seguindo uma linha que eu diria quase intuitiva, a autora considera que é possível que ideias e práticas védicas, mais especificamente aquelas que têm relação com Tapas (geralmente traduzido por Esforço), sejam os “germes de desenvolvimentos que mais tarde resultariam naquilo que conhecemos como o Yoga”.
Para explicar Tapas a autora lança mão de histórias que, particularmente dispenso porque reproduzem conceitos relacionados ao feminino e ao masculino que, ao meu ver e à luz de nossos dias, estão ultrapassados. Em que pese este fato, Tapas é entendido como esforço sobre si mesmo com fins de ultrapassagem de certas limitações individuais tais como jejuar, guardar silêncio, controlar a respiração, entre outros, tendo por finalidade acumular certa energia interior, e a partir desse esforço concentrado, aprimorar a “resistência da natureza individual com seus impulsos, sua dispersão, suas hesitações, suas falhas”.
A autora finaliza o capítulo explorando o aspecto de Tapas que se distancia do sacrifício do corpo de modo que sobre ele sejam impingidas austeridades violentas, ou seja, se esforçar para pensar com clareza, com ausência de violência para com outrem, linguagem amigável, com foco no silêncio, no autodomínio, enfim, diz respeito à “perfeição do corpo e dos sentidos, e não de sua mutilação ou destruição” com o intuito de “obter a fixidez do espírito".

Por aqui termina o primeiro capítulo. O segundo será sobre “As bases doutrinais do Yoga: O Sâmkhya”. 
Até semana que vem!
Paz para nós e todos os povos. Estamos precisando. 
Abraços, Sheila _/|\_

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Yoga com pessoas cegas - encerramento 2016


Na última segunda-feira, dia 05 de dezembro, realizamos a nossa última prática de Yoga do ano no Instituto de Pessoas Cegas em Recife. O Instituto entrará em recesso, mas ano que vem continuaremos firmes e fortes nesse projeto que tem sido um dos maiores aprendizados que eu poderia ter nessa vida.
Desde que o projeto começou em Abril (a partir da doação tapetinhos, tijolinhos e faixas por amigas e até por uma desconhecida que tive o prazer de conhecer a posteriori), mudanças aconteceram. Pelo menos dois alunos (uma aluna e um aluno) tiveram que ir para as cadeiras (não estava sendo possível, pelos sérios problemas de saúde, continuarem nos tapetinhos), mudamos de sala, tivemos que nos adaptar às mudanças eles e eu, e hoje eu posso dizer, sem sombra de dúvidas, que os grandes aprendizados de vida, neste ano, tive com eles. São minhas fontes de inspiração.







Muitas vezes é muito cansativo, não vou negar. Já tive momentos em que me arrependi de ter ultrapassado o número de cinco, pois a demanda é grande e eu fui aprendendo enquanto tudo acontecia: momento de entrada na sala- todos ao mesmo tempo - tropeçando algumas vezes um no outro - lugar para sapatos, bolsas, desligar celular – “qual é a tecla para desligar?” – Respira – Inspira – Expira - Descrição densa da Ásana - O celular toca - “de quem é a bolsa, de que cor é a bolsa?” (gafes e mais gafes, perdão!) - momento de levantar - todos ao mesmo tempo - é a hora do lanche - tem que ir para não perder a hora do lanche - procurar os sapatos - um abraço na professora – “Onde estão os óculos?” - Outro abraço na professora – “Onde estão as bengalas?” Obrigada, professora! Obrigada, meus amores! Obrigada, Dona Neide, Sr. José Carlos, Dione, Sr. Máurio, Ester, Sr. Reinaldo, Dona Alba, Jane, Dona Helena, obrigada!
Há sete anos aproximadamente sei que tenho comprometimento nas córneas e há um ano resolvi encarar este e outros (des) caminhos que me trouxeram para o momento presente. Muitos aprendizados e infinitas possibilidades. Sou grata por tudo. Graças a vocês, eu me sinto uma pessoa melhor. 
Hoje somos onze, vocês e eu. Termino o ano sabendo que preciso estudar mais, no mínimo, sobre a velhice e cegueira. 
A vida é simples. Muito simples. A gente só precisa ter atenção e presença.
Obrigada, vida!

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Aparigraha ou não possessividade

Algo que me foi extremamente impactante no processo de formação em Yoga foi o conhecimento da existência dos preceitos éticos - Yamas e Niyamas. Alguns deles eu já tinha entrado em contato de algum modo - ahimsa (ou não-violência) certamente já tinha ouvido algumas vezes, assim como tapah ou tapas (esforço sobre si mesmo), mas eu não sabia que nesse caminho do yoga existia uma coisa tão elaborada e com tanto sentido para a vida como são os Yamas e Niyamas.
É fim de ano e, como sempre, realizo faxinão. É tempo, como em qualquer tempo, aliás, de desapegar. Nesse sentido aproveito as conexões mentais para enfatizar o Yama Aparigraha que significa "Não-possessividade" ou "Desapego". Há alguns anos eu ouvi uma história de um macaquinho e ela só veio alimentar algo que tenho dentro de mim - o desapego de coisas. Quando criança e adolescente morei em muitos lugares. Quando começava a fincar raízes meu pai era transferido em seu trabalho e lá íamos nós (eu e meus irmãos) nos adaptando a outros tempos e espaços. Apesar de ser bem desapegada de coisas, não tenho a mesma facilidade com as pessoas ou com a ideia que acabo construindo sobre as mesmas. Antes eu não tinha clareza sobre isso, e ter essa clareza tem facilitado esse processo doloroso de abrir mão, deixar ir, deixar ser fim, aceitar a impermanência de tudo, buscar outros caminhos, "largar as bananas".
A história do macaquinho é uma pequena e triste história sobre a ausência de habilidade com o desapego. Sempre penso nela quando estou diante de situações me transmitem alguma sensação de aperto, limitação, prisão, ou seja, qualquer coisa que limite minha expansão, meu respiro, meus espaços. Fui tentar a história na internet para talvez contá-la com mais detalhes e a encontrei num blog de conteúdo empresarial, o que achei bem curioso (o link segue abaixo). A história conta que "Tribos africanas desenvolveram um método inteligente para capturar os macacos, animais que pulam de galho em galho entre as árvores que dificultam a sua captura. A armadilha funciona com uma banana como isca dentro de uma vasilha feita com boca estreita, onde o macaco coloca a mão dentro mas não consegue tira-la fechada agarrando a banana. Por instinto, o animal continua tentando pegar a banana mas acaba com um final trágico, capturado pelos nativos como alimento".
O macaquinho podia tirar a mão de dentro da garrafa, mas para isso ele precisava abrir mão da banana. Parece fácil olhando de longe, mas a maioria de nós primos-irmãos dos macaquinhos estamos cotidianamente caindo em armadilhas que nos prendem (adoecendo, silenciando, matando aos pouquinhos) simplesmente porque estamos apegados às bananas ou à ideia que fazemos dela. Identificar a banana que te prende e se desapegar dela é um passo decisivo na vida. Liberar-se de objetos antigos (ou sem uso), de relacionamentos tóxicos, de concepções de trabalho e de relacionamentos é uma imensa porta para liberdade. É espaço em todos os sentidos. Expansão, pulsação.
Aparigraha é liberdade. É vida.
(https://laboratoriumbr.wordpress.com/2012/06/21/larga-a-banana-mude-de-estrategia-para-nao-cair-na-armadilha-do-macaco/)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Dança e técnicas aplicadas à saúde

Os escritos a seguir resultam dos estudos relativos ao Módulo Dança e Técnicas aplicadas à saúde (Educação Somática) . 
Deveria ter uma linguagem acadêmica, com direito a citações e regras da ABNT, mas o meu momento é poesia. Tenho respeitado o meu momento.








Das somas de tanto
fui gerada
e
por agora existo.
 Adiciono-me,
 multiplico-me,
 dividido-me.
Somo.  
Retiro-me do ontem e do amanhã
para o agora
em alma e corpo
Estou.
Soul e Soma,
Sou.

08/11/2016

Do contato com a dança aprendi a me sentir à vontade com minhas possibilidades, gestos, quebras, circularidades. Aprendi a acompanhar o giro do olhar pelas mãos, e entendi os riscos, traços e rabiscos dos meus passos seguros ou cambaleantes pelo solo, com as texturas, cores e sabores da minha pele.
A dança é um sonho que torno realidade a cada movimento que meu corpo ensaia, a cada tridimensionalidade que meu horizonte espreita, a cada conhecimento que meus poros absorvem ou expurgam, por cima, baixo, dentro, fora, tórax – cabeça – costela, pelve-cabeça, cabeça-tórax, externo-interno.
Meu corpo, matéria prima de poesia. Soma.
Caminho pelo espaço que é meu – cinesfera - lugar dos meus ruídos. Meus. Estes por dentro do espaço que também é do outro – global. Perco-me e alí me encontro. Nada sou além de mim em minha composição corpórea, biológica, sensório-motora e isso é estar plena. Esse nada é tudo.
Transgrido-me pela variação dos meus circuitos, escolho entre diferentes caminhos aquele que me parece o mais apropriado, caminho pelos novos conceitos que adentram meus sentidos. Minhas experiências. Minhas fontes de conhecimento.
Verticalização, horizontalização. Sento, deito, em pé caminho, foco o outro, o outro me foca. Sou afetada. Crio-me e recrio-me, reinventando sistemas autopoiéticos. Sou a ameba da enação. Carrego em mim a memória do que sou. Minha saliva, minhas vivências, minhas relações, minhas práticas, meus automatismos, meus não-sei-o-quê.
Alexander – Mathias e Gerdha, Feldenkrais, Vianna, Thomas Hanna, Sylvie Fortin, amebas contorcidas em torno self. Dedos dos pés, couro cabeludo, pele, temperaturas, marcas, cicatrizes, ossos, calos, nervos, peso, volume. Tônus. Subversão do mecanicismo, conexões corpo, cérebro, ambiente – sinestesia. Na parte do meu corpo que toco há política, na parte do corpo que não me toca também.
Em mim, sozinha ou com o outros, cartografias de afetos desenhadas em oposição ao ethos moderno do desamor – o não toque, o não saber, a desapropriação, despropriocepção. Na oposição, escuta interna, micromovimentos, observação, intuição, ética transbordada pela potência dos afetos: “quanto um corpo pode ser afetado?”
Afeto-me pelas entranhas em contato com a criação que fiz de mim – pulmões como asas! – “Ah asas, por favor, voem!” , corpo no chão como semente: “Ah semente, por favor, germine!”. Não por favor atravesso-me por vetores. Aceito-os. Descubro-os como soma. Juntos. Corpo. Usufruo: metatarso, calcâneo, púbis, sacro, escápulas, cotovelos, metacarpo. O que dizes de mim sétima vértebra cervical?
Meu corpo fala de mim. Não. Ele se diz de si como quem pula sobre a própria sombra. No pulo: a queda. O chão que acolhe. Momento do reconhecimento das fontes de apoio do corpo no chão e no espaço. Espaço da dor, mas também da cura.
Cura.

Soma. Soul. 

terça-feira, 8 de novembro de 2016

A purificação dos olhos – Trãtaka ou Tratak

Yoga é um mundo. Um infinito. Entre as tantas coisas que existem em Yoga estão as purificações ou Satkarmas (as seis ações purificadoras): dhauti (purificação do trato digestivo), vasti (lavagem intestinal com água salgada), neti (com um pano ou com água), Trãtaka (purificação dos olhos com exercícios visuais), nauli (auto-massagem abdominal), kapalabhati (limpeza das vias respiratórias).
Uma das minhas “descobertas” mais espetaculares em relação ao Yoga foi perceber que eu tinha muitas mais partes em meu corpo do que eu mesma supunha e, mais que isso, que para todas elas existia uma técnica ou orientação específica por meio do Yoga. Do material para o sutil é o caminho indicado, e no material estão também os nossos olhos e pelos caminhos dos olhos, os músculos, a concentração, o olhar interno.
Hoje, bem cedinho, exercitamos o Trataka (como na imagem), e o fizemos pela fixação do olhar a partir de um objeto, a vela (um objeto imóvel). 



Esta foi a nossa escolha hoje, mas Trataka pode acontecer tanto a partir de um objeto ou ponto imóvel, tal como entre as sobrancelhas ou ponta do nariz, quanto de um objeto ou ponto que se desloca como, por exemplo, um polegar que dança lentamente enquanto os olhos o acompanham (como está na imagem a seguir retirada do livro Yoga para nervosos). 




Há ainda, a possibilidade fixar o olhar sobre uma estrela ou sobre a lua, o que me parece muito prazeroso e até poético.
A partir desse exercício caminhamos em busca do fortalecimento dos olhos, do estímulo às glândulas lacrimais e ao cérebro através dos nervos ópticos, e do desenvolvimento da concentração. Há ainda entre seus efeitos a diminuição da agitação e o combate ao estresse e a insônia.  
Para descansar os olhos ao fim dos exercícios é possível tanto massagear os supercílios com os dedos indicador e polegar, quanto aquecer os olhos com a energia gerada pela fricção das palmas das mãos que deverão se assentar sobre os olhos abertos.
É sempre bom realizar algum exercício ocular ao fim do dia, ou mesmo após horas de trabalho em frente ao computador.
Espero que tenha sido um artigo interessante. Bom dia e saudações.

Referências:

FEUERSTEIN, Georg. Enciclopédia de Yoga da Pensamento. São Paulo, Pensamento, 2005.
KUPFER, P. Formação em Yoga - Módulo 1, 2015.
HERÓGENES, J. Yoga para nervosos. Rio de Janeiro: Nova Era, 2005.
PACKER, M. L. G. A senda do Yoga – Filosofia, Prática e Terapêutica. Blumenal: Nova Letra, 2009.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

O Mahabharata e eu

O Mahabharata e eu.

Sei de duas coisas:
- Sobre as escrituras sagradas nada sei, e respeito profundamente quem estuda e sabe.
- Sei de análise do discurso e o que significa cultura do estupro, e respeito o que sei.

Dito isto ouso escrever sobre algo que me incomodou demasiadamente ao entrar em contato pela primeira vez com o Mahabharata. Segundo a Wikipedia “O Maabárata é visto por alguns autores como o texto sagrado de maior importância no hinduísmo, e pode ser considerado um verdadeiro manual de psicologia-evolutiva de um ser humano. A obra discute o tri-varga ou as três metas da vida humana: kama ou desfrute sensorial, artha ou desenvolvimento econômico e dharma, a religiosidade que se resume a códigos de conduta moral e rituais. Além dessas metas, o Maabárata trata de moksha, ou a liberação do ciclo de tri-varga e a saída do samsara, ou ciclo de nascimentos e mortes. Em outras palavras, é uma obra que visa ao conhecimento da natureza do "eu" e à sua relação eterna com toda a criação e aquilo que transcende a ela”.
A primeira vez que entrei em contato com o Mahabharata não o li. Ele me foi contado e a um grupo de pessoas ao modo indiano, com foco na entonação da voz e uso de gestos corporais e faciais. Esses detalhes sei, fazem toda a diferença no sentido de um discurso, e até mais que o texto escrito, me provocaram sensações tão ruins que paralisei ao ouvir a narrativa de uma das primeiras “cenas” do Mahabharata, cuja autoria é atribuída a Krishna Dvapayana Vyasa, o grande sábio.
Eu não vou me estender muito, até porque pouco entendi dessa história que, em termos de genealogia, deixa Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez, no chinelo. Eu quero expor um angústia, uma tristeza, uma raiva, uma decepção, tudo ao mesmo tempo, ao ouvir risos provocados pela narrativa do estupro de duas mulheres vítimas de Vyasa, o grande sábio, e narrador do Mahabharata. É forte a palavra que estou usando – estupro? Sim, é forte, tão forte quanto a história de duas irmãs que deveriam estar disponíveis sexualmente ao grande sábio Vyasa para que, nelas, ele fizesse “O” representante de uma dinastia que ameaçava ser extinta. “O” representante no masculino sim, pois todos os governantes, guerreiros, sábios, são homens, fortes, viris, SEMPRE. Às mulheres cabe o velho papel de mulheres belas, delicadas, cheirosas, divinas e, obviamente, reprodutoras. SEMPRE. Conta a história que Vyasa tinha aspecto assustador, que seus cabelos e barbas eram desgrenhados e suas unhas enormes, e que Ambika, a primeira irmã fechou os olhos durante a relação sexual e, por isso, o filho nasceu cego. Sabendo da experiência horrenda da irmã, Ambalika, a segunda, estava muito assustada e o filho nasceu pálido e com saúde frágil. 

Certamente, segundo estudiosos/as, o Mahabharata lança mão de imagens arquetípicas universais (o que ao meu ver pode ser questionável como qualquer outra justificativa em torno de qualquer obra considerada sagrada), a minha questão é que, apesar da alusão ao princípio de universalidade que os arquétipos encarnam, e considerando inclusive as especificidades regionais e históricas, parece-me inadmissível que a história das irmãs seja contada de modo a provocar risos, principalmente num meio que se propõe transformar as velhas formas do viver (parafraseando Gil) pelo caminho do Yoga. Se não é possível mudar o que está escrito, pelo menos que se conte de outro modo. É preciso não se distrair também dessa cultura que naturaliza a violência contra as mulheres e principalmente o estupro. É preciso não se distrair.